sábado, 21 de outubro de 2017

The Room by the Lake (Emma Dibdin)

Incapaz de lidar com os problemas na sua vida, Caitlin mudou-se impulsivamente para o outro lado do oceano, mas agora sente-se só e perdida. Não sabe ao certo o que fazer, por isso limita-se a vaguear, tentando encontrar alguém e deixar para trás o nevoeiro que lhe turva os pensamentos. E então, um dia, conhece Jake e ele parece ser tudo o que ela tem andado a procurar. Até que uma promessa de conhecer a família dele se transforma em algo diferente. Junto ao lago, um grupo de apoio isolado vive em comunidade, partilhando tudo uns com os outros. Mas há algo de estranho nesse grupo e, embora Caitlin questione o que se passa à sua volta, a necessidade de pertencer é mais forte que as dúvidas. Não tarda, os seus pensamentos começam a ficar turvos e o seu maior medo começa a emergir-lhe da própria mente… Fugir deixou de ser possível. Ou talvez nunca tenha sido.
Um dos aspectos mais intrigantes deste livro é que, embora leve o seu tempo a chegar às partes assustadores, há sempre nele uma certa aura inquietante, como uma estranha sensação que diz que há coisas mais negras para vir. E assim, o que começa como uma história um pouco triste (embora intrigante) sobre uma rapariga que deixou tudo para trás para não encontrar nada melhor do outro lado, não tarda a transformar-se numa narrativa mais perturbadora, sobre pessoas que parecem viver em tranquila comunhão, mas que na verdade guardam segredos no seu seio. Tudo evolui gradualmente, mas de forma envolvente. E, à medida que as páginas passam, a intensidade aumenta. E os últimos capítulos… bem, são simplesmente assustadores.
Também surpreendente, e uma das grandes forças deste livro, é o facto de, apesar de haver segredos perturbadores e episódios assustadores a acontecer, o caminho nunca é previsível. A comunidade não é, obviamente, o refúgio que devia ser, mas as coisas más que acontecem nunca são as mais expectáveis. E, ao contar a história do ponto de vista de Caitlin, o impacto deste percurso sai reforçado, pois muitos dos segredos obscuros têm origem na manipulação da mente, e a autora dá-lhe o tom ideal ao narrar tudo pela voz por vezes confusa da protagonista.
Há também muitas questões relevantes a ter em conta ao longo desta história: a ideia de comunidade e as possibilidades de adaptar este conceito a intenções perversas; a doença mental e o impacto que tem sobre a família; a impressão de crença, de querer, e como a mente constrói narrativas reconfortantes para se adaptar ao objectivo desejado. Tudo isto está, de algum modo, presente na história de Caitlin e o facto de estas questões pertinentes surgirem da narrativa de forma totalmente natural e sem diluírem a intensidade global do enredo é outra das muitas qualidades deste livro. E, no fim, tudo o que precisa de ser dito está lá. E o que não está… bem, faz sentido que fique por dizer.
A soma de tudo isto é, portanto, um livro intenso e misterioso, com grandes (mas falíveis) personagens e uma história que vagueia pelos labirintos da mente para criar uma teia de intensas e intrigantes surpresas. Envolvente, inesperado e fascinantemente construído, uma leitura bastante impressionante, e um livro que não posso deixar de recomendar.

Título: The Room by the Lake
Autora: Emma Dibdin
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Divulgação: Novidade Bertrand

Chegado à sua quarta escola em seis anos, Osei Kokote, filho de um diplomata, sabe que precisa de um aliado se quiser sobreviver ao primeiro dia de aulas. É uma sorte dar-se tão bem com Dee, a rapariga mais popular da escola. Mas há um colega que não suporta aquela relação: Ian decide destruir a amizade entre o rapaz negro e a menina de ouro. Chegados ao fim do dia, a escola e os seus principais actores (professores e alunos) nunca mais serão os mesmos. A tragédia de Otelo é transportada para o recreio de uma escola suburbana de Washington nos anos 70, onde os miúdos se apaixonam e desapaixonam antes da hora de almoço e praticam um racismo casual que vem de casa e dos professores. Tracy Chevalier cria um fortíssimo drama de amizades despedaçadas pelo ciúme, pelo bullying e pela traição.

Tracy Chevalier é autora de nove romances, incluindo o bestseller internacional Rapariga Com Brinco de Pérola, que vendeu mais de 5 milhões de exemplares e foi adaptado ao cinema. Americana de nascimento, britânica na geografia, vive em Londres com o marido e o filho. Tracy é membro da Royal Society of Literature e pode ser encontrada no site: www.tchevalier.com.

Divulgação: Novidades Topseller

As histórias não podem ser aprisionadas.
Subhi é um rapaz cheio de sonhos. Desde que nasceu, vive com a mãe e a irmã num campo de detenção permanente de refugiados.
Nunca conheceu nada para lá das cercas e das tendas de lona, mas a sua imaginação não tem limites.
Todas as noites, Subhi ouve o longínquo canto das baleias e escuta o que os pássaros vêm sussurrar-lhe ao ouvido. As histórias que ouve, que lê e que conta tornam-se o centro da sua vida.
Até que, um dia, Subhi conhece Jimmie, uma menina que vive do lado de lá da cerca de arame. Ela traz consigo um caderno escrito pela sua mãe, já falecida. Mas Jimmie não conhece as letras e é Subhi que lhe lê as histórias daquele livro tão especial e mágico.
Cada conto dá lugar a uma revelação. Cada revelação dá lugar a novas histórias contadas dos dois lados da cerca. Pelo caminho, uma amizade profunda vai crescendo, trazendo consigo o conforto e a coragem de que Subhi e Jimmie vão precisar até conquistarem, finalmente, a liberdade.

Zana Fraillon nasceu em Melbourne, na Austrália, mas passou a sua infância em São Francisco, nos Estados Unidos.
Já escreveu livros para crianças e jovens de diferentes idades. Quando não está ocupada a ler ou a escrever, adora explorar museus e recantos secretos espalhados pela cidade. Na sua opinião, ambos oferecem aquela mesma emoção que se sente ao abrir um livro: tudo pode acontecer.
A autora regressou recentemente à sua terra natal, onde mora com os três filhos, o marido e dois cães.

No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam.
Depois da morte do pai, Emilia regressa a Peasebrook para gerir a velha livraria da família, Nightingale Books — o sonho de qualquer bibliófilo e um refúgio para os moradores desta pequena vila. Mas agora que está responsável pelo seu futuro, Emilia terá de afastar potenciais compradores, ao mesmo tempo que tenta cumprir o último desejo do pai.
Uma livraria extraordinária com pessoas extraordinárias…
Desde a mulher que a visita há anos, ao recém-divorciado que tenta reaproximar-se do filho, e ainda a tímida chef de cozinha que se apaixona na secção de culinária… há algo de magnético neste sítio. Até Emilia sente as forças da livraria a conspirarem por si quando se cruza com um homem a quem não consegue ficar indiferente. Com todos a depender dela, conseguirá Emilia encontrar um destino feliz para a livraria e os seus leitores?
No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam.

Veronica Henry é filha de militares, o que a levou a mudar várias vezes de cidade e de escola. Formou- -se em Estudos Clássicos, na Universidade de Bristol, e complementou a sua formação com um curso de secretariado bilingue. Após a conclusão, trabalhou como assistente de produção na radionovela britânica The Archers, que lhe deu bases para trabalhar como guionista numa estação de televisão.
Em 2000, publicou o seu primeiro livro e desde então a sua obra cresceu, tendo mais de 15 livros no currículo e muitos artigos publicados na imprensa.

Na pequena aldeia islandesa de Siglufjördur, o jovem polícia Ari Thór Arason procura refúgio do seu passado e dos horrores que nele se escondem. Apesar do isolamento da aldeia, acessível apenas por um pequeno túnel nas montanhas, mantém uma relação difícil com os aldeões, que o acham estranho. Exausto, e com a sua vida privada a intrometer-se no trabalho, Ari Thór mete baixa.
Com Ari Thór ausente, o polícia que o substitui, e seu único colega, é assassinado à queima-roupa, a meio da noite, numa casa deserta. Cabe agora a Ari Thór deslindar um caso que rapidamente se torna muito mais complicado do que parecia: a comunidade fecha-se, a política local dificulta tudo, e o novo presidente da Câmara envolve-se no caso muito além da sua função.
A investigação vai levar Ari Thór até bem longe da aldeia. O que terá a ala psiquiátrica de um hospital em Reiquiavique a ver com este crime? O que será que todos em Siglufjördur estão a tentar esconder? E conseguirá Ari Thór aguentar uma investigação tão exigente?

Ragnar Jónasson nasceu na Islândia e é um autor bestseller internacional publicado em 18 países, com amplo sucesso junto da crítica. Trabalhou em televisão e em rádio, inclusive como jornalista da Radiotelevisão Nacional da Islândia. Actualmente é advogado e professor na Faculdade de Direito da Universidade de Reiquiavique.
Autor em ascensão na literatura policial internacional, Jónasson traduziu 14 livros de Agatha Christie para islandês e viu já vários dos seus contos serem publicados em revistas literárias alemãs, inglesas e islandesas.
Noite Cega é o segundo livro do autor na Topseller, seguindo-se a Neve Cega, e continua uma série de extraordinário sucesso em todo o mundo, agarrando os leitores portugueses da primeira à última página.

Divulgação: Novidade Porto Editora

«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível»
Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.
Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.
Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente actual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.

Isabel Allende, nascida em 1942, de nacionalidade chilena-americana, viveu no Chile entre 1945 e 1951, quando começou a viajar seguindo o seu padrasto, um diplomata chileno. Iniciou no Chile a sua carreira como jornalista. Após o golpe militar de 1973, refugiou-se na Venezuela, onde residiu treze anos, e aí começou a escrever. Desde
1988 vive na Califórnia.
Em 1982, o seu primeiro romance, A casa dos espíritos, transformou-se num dos títulos míticos da literatura latino-americana. Desde então escreveu vinte e dois livros, que se tornaram êxitos internacionais. A sua obra foi traduzida para trinta e cinco línguas e vendeu mais de sessenta e sete milhões de exemplares. Recebeu mais de cinquenta prémios internacionais e treze doutoramentos honorários. Em 2010 foi galardoada no Chile com o Prémio Nacional de Literatura, e em 2014 recebeu a Medalha da Liberdade, o galardão civil mais importante dos Estados Unidos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Um dos Nossos (Daniel Magariel)

A guerra acabou, finalmente - e, por guerra, entenda-se o processo de divórcio. Agora, são só eles os três: ele, o pai e o irmão mais velho, rumo a uma vida nova no Novo México, onde poderão finalmente ser livres e recomeçar. Mas recomeçar como, se os fantasmas que os levaram até ali continuam vivos? E como, se o que começa por ser um recomeço promissor não tarda a resvalar para velhos vícios e não tão velhas violências? Não tarda, o que parecia apenas estranho transforma-se numa espiral de autodestruição. E, sozinhos num laço cada vez mais disfuncional, os dois irmãos precisam de se escolher a si mesmos e não à necessidade de ser apenas "um dos nossos."
Não é propriamente fácil falar sobre este livro, pois um dos primeiros aspectos a destacar-se é o facto de marcarem mais as impressões emocionais do que a narração em si. A história é contada pelo mais novo dos dois irmãos e, posto perante uma situação de mudança e de escolha num tempo em que vive ainda toda a inocência (e lealdade por vezes distorcida) da infância, é como se cada momento fosse uma espécie de revolução. E é fascinante como esta impressão - a de uma criança confusa que só quer pertencer - facilmente passa para o leitor. Sem elaborações desnecessárias, sem grandes descrições ou introspecções, o autor dá ao seu protagonista a voz de que precisa para expressar a sua vulnerabilidade.
E é de vulnerabilidade que se trata, de uma fragilidade que se revela a cada novo acesso das trevas que, aos poucos, começam a rodear a vida do protagonista. O que parecia ser uma relação difícil (e bastam os primeiros momentos para perceber que há, de facto, uma guerra a acontecer) não tarda a revelar-se como algo ainda mais negro. E ver esse crescendo de escuridão pelos olhos do mais inocente dos intervenientes... bem, é angustiante. E mais o é ainda pela precisão com que o autor constrói a história - realçando em actos todos os erros, toda a manipulação, toda a violência... todo o abandono. No fim, é impossível não ficar de coração apertado por estes dois irmãos que, num mundo onde ninguém é perfeito, parecem ter de carregar todo o peso da imperfeição aos ombros.
Há ainda um outro aspecto curioso a sobressair desta viagem: é que, em pouco mais de cento e cinquenta páginas, fica-se com a sensação de ter percorrido uma vida inteira! O que não pode senão fazer todo o sentido, até porque, na infância, cada dia pode parecer uma eternidade, e ainda mais nas condições destas personagens. Além disso, esta relativa brevidade tem ainda o efeito de maximizar o impacto de cada momento, fazendo da história uma constante sucessão de revelações perturbadoras que, por mais angustiantes que sejam, não é possível abandonar antes de saber o que acontece depois. E, bem... o que acontece depois - o que é contado e o que não é - é também algo que faz um estranho sentido, deixando em aberto todas as possibilidades.
Intenso, angustiante, perturbador, eis, pois, um livro capaz de despertar um amplo espectro de emoções, e que, na sua relativa simplicidade, consegue conter a complexidade de uma vida inteira, em toda a sua glória e destruição. Memorável em todos os aspectos - e principalmente na voz que conta toda esta história - um livro que não posso deixar de recomendar. 

Título: Um dos Nossos
Autor: Daniel Magariel
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Para sobreviver a um assassino, é preciso ter um instinto assassino.
Há dez anos, Quincy Carpenter, uma estudante universitária, foi a única sobrevivente de uma terrível chacina numa cabana onde passava o fim de semana com amigos. A partir desse momento, começou a fazer parte de um grupo ao qual ninguém queria pertencer: as Últimas Vítimas. Desse grupo fazem também parte Lisa Milner, que perdeu nove amigas esfaqueadas na residência universitária onde vivia, e Samantha Boyd, que enfrentou um assassino no hotel onde trabalhava.
As três raparigas foram as únicas sobreviventes de três hediondos massacres e sempre se mantiveram afastadas, procurando superar os seus traumas. Mas, quando Lisa aparece morta na banheira de sua casa, Samantha procura Quincy e força-a a reviver o passado, que até ali permanecera recalcado.
Quincy percebe, então, que se quiser saber o verdadeiro motivo por que Samantha a procurou e, ao mesmo tempo, afastar a polícia e os jornalistas que não a deixam em paz, terá de se lembrar do que aconteceu na cabana, naquela noite traumática.
Mas recuperar a memória pode revelar muito mais do que ela gostaria.

Riley Sager (pseudónimo) é natural da Pensilvânia. Escreve e trabalha em edição e design gráfico.
Vidas Finais: As Sobreviventes é o seu primeiro thriller e foi um verdadeiro êxito, tendo sido publicado em mais de 18 países.
Além de escrever, Riley adora ler, ver filmes e cozinhar.
Actualmente, vive em Princeton, New Jersey

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe - segunda parte

Continuando na senda das leituras de Poe, e deste livro tão fascinante no aspecto como no conteúdo, volto aos ambientes sombrios deste livro para lhe percorrer os labirintos de mistério e imaginação.

E com sombras começo, pois O Poço e o Pêndulo é precisamente o relato da mais terrível e tenebrosa das sentenças de morte. Descrito com um detalhe avassalador e, precisamente por isso, aterrador na sua exactidão, este é um conto de emoções intensas - e onde o sinistro toma formas inimagináveis.
Segue-se O Mistério de Marie Rogêt, e o regresso do fascinante Auguste Dupin. História da resolução de um crime por via estritamente racional, este é um conto que, bastante extenso e elaboradíssimo na sua análise dos pormenores, consegue ser um pouco cansativo. Mas há na forma como tudo, incluindo o mais pequeno detalhe, encaixa na resolução do mistério um estranho fascínio - e esse contempla amplamente o muito pausado ritmo da narrativa.
Passando do racional ao sinistro, segue-se O Coração Delator, mais breve e consideravelmente mais intenso, mas com a mesma aura de mistério que tanto cativa neste autor. A história é a de um crime longamente planeado e a da mais imprevista forma de revelação. E é essa surpresa final - não de quem é o culpado, mas de como este se revela - que torna o conto tão sombrio e fascinante. 
O Escaravelho de Ouro conta como a descoberta de um simples, embora invulgar, insecto dá origem a uma descoberta muito, muito mais preciosa. Intrigante pela aura de mistério e perplexidade da fase inicial, este conto surpreende, acima de tudo, por partir de um grande desconhecido, para depois aplicar à descoberta um processo dedutivo digno de um  - aqui ausente, mas inevitavelmente trazido à memória - Auguste Dupin.
Segue-se O Gato Preto, história de um temperamento que se torna perverso e de uma também perversa espécie de justiça poética. Sombrio, cruel, sinistro a espaços, mas estranhamente fascinante na sua caminhada progressiva ao que desde muito cedo se sente que será um final revelador, este é um conto que, apesar de não ser particularmente extenso, consegue, ainda assim, transmitir toda a força do cenário - físico e mental - em que decorre.
Montanhas Escabrosas une duas vidas através de uma visão, numa história enigmática e um tanto ambígua, onde parecem ficar algumas explicações por dar, mas em que as perguntas deixadas sem resposta nada tiram ao fascínio do mistério.
O Anjo do Bizarro, por sua vez, explora as relativas probabilidades dos acontecimentos bizarros, na forma de uma sucessão de peculiaridades... premeditadamente induzidas. Caricato na sucessão de acontecimentos, mas principalmente na figura que os faz surgir, um conto inesperadamente leve e cativante - e uma boa surpresa por entre tantas sombras.
Segue-se A Carta Furtada, mais um dos intrigantes casos de Auguste Dupin. Neste caso, a resposta parece fugir até aos métodos de investigação mais sofisticados, mas as capacidades de Dupin nunca desiludem. Intrigante, misterioso e - desta vez - também com um leve toque de vingança pessoal, mais um conto cheio de surpresas.
Depois vem Pequena Discussão com uma Múmia, que traz um antigo egípcio do seu sarcófago para um aceso debate entre os méritos das diferentes épocas históricas a que pertencem múmia e seus interlocutores. Peculiar, mas muitíssimo cativante, surpreende também pela forma como põe em contraste os sucessos alegadamente inovadores e os seus semelhantes do passado. 
O Demónio da Perversidade abre como que num registo de introspecção, ponderando nas razões que levam a fazer o que não se devia - para depois exemplificar com um caso prático em que fazer o devido significa guardar segredos mais negros. Breve e inicialmente pausado, este é um conto que surpreende pela súbita mudança de registo, marcando também pela forma como, tanto na introspecção como na acção, se sente precisamente o mesmo fascínio.
O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, conto de longo título, narra uma estranha visita a um asilo de loucos, cujo famoso método parece ter sido substituído por algo de consideravelmente mais estranho. Não sendo propriamente imprevisível, este é um conto que se destaca pela bizarria do ambiente, bem como pela relativa inocência com que o narrador parece encarar as circunstâncias em que se meteu. 
Segue-se A Verdade sobre o Caso do Senhor Valdemar, história de uma experiência realizada na iminência da morte e dos seus surpreendentes e tenebrosos resultados. Intrigante e sinistro, também neste conto não é difícil antecipar de que forma as coisas poderão terminar. Ainda assim, esta relativa previsibilidade nada retira à intensidade de um relato onde tudo no seu aspecto sombrio desperta como que uma estranha intensidade.
Também um dos contos mais conhecidos do autor (e também um dos meus favoritos), A Pipa de Amontillado conta a história de uma vingança meticulosa, num registo tão mais sinistro pela aparente leveza que parece mover os gestos do protagonista. Intenso e memorável, um conto que, apesar do ambiente também sombrio, perturba muito mais pelas acções que pelos cenários.
E o último conto é Hop-Frog, também ele uma história de vingança, e esta ainda mais elaborada que a do conto anterior. Além do cenário impressionante e da habitual intriga sombria e fantasticamente construída, sobressai ainda um outro aspecto neste conto: a forma como a vingança de Hop-Frog contém também em si como que um laivo de justiça poética. 

Que faltará dizer sobre este livro? Não muito, até porque a melhor forma de lhe conhecer as qualidades (e são tantas...) é mesmo lendo-o. Mas importa realçar ainda uma vez mais que, ao dar a tão vasto e impressionante conteúdo um aspecto também ele impressionante, este extenso e belíssimo volume torna a viagem ainda mais memorável. E, num cenário tão vasto e sombrio como o dos contos de Poe, até o mais pequeno dos detalhes impressiona. A imagem que fica é, portanto, muito simples: a de uma belíssima forma de conhecer estes contos para quem nunca leu nada de Poe - e a de um livro imperdível para os apreciadores do autor. Magnífico.

Autor: Edgar Allan Poe
Origem: Recebido para crítica