sexta-feira, 24 de novembro de 2017

After Dead (Charlaine Harris)

Depois de terminadas as aventuras de Sookie Stackhouse, e tendo em conta a rapidez do fim, ficou em aberto uma certa curiosidade: o que aconteceu às muitas e peculiares personagens de Bon Temps e arredores? Bem, este livro traz as respostas e fá-lo de forma muito simples e sucinta, numa enumeração por ordem alfabética do futuro dos principais intervenientes nesta longa e atribulada aventura. Se satisfaz a curiosidade? Bem, depende do que se procura. Mas vamos por partes.
O principal ponto positivo deste livro - e comum, naturalmente, a muitas outras séries - é que é sempre bom rever, por mais brevemente que seja, as personagens que, ao longo do longo caminho de uma série, se tornaram queridas. E se tivermos em conta a forma como tudo terminou no último livro da série, então é especialmente interessante saber um pouco mais do que vem depois. Tendo isto em vista, para quem gosta da série a leitura nunca deixará de ser um regresso agradável, até porque as ilustrações que acompanham o texto fazem também lembrar enredos passados.
Mas há um outro lado para tudo isto. É que o impacto das personagens ou o papel que desempenharam na história conduzem agora a um fim demasiado breve. Há desenvolvimentos futuros - principalmente no caso de Bill, mas não só - que justificavam por si mesmos uma nova história. Resumi-los em poucos parágrafos acaba por ficar um pouco aquém das expectativas, pois responde à pergunta que motivou a leitura - o que aconteceu depois? - mas acaba por deixar novas perguntas e, portanto, nova curiosidade insatisfeita.
Não deixa de ser uma leitura interessante, até porque há algumas revelações inesperadas. E, mais uma vez, tendo em conta a forma como tudo terminou, é interessante descobrir o que vem depois. Além disso, e apesar da brevidade, esta pequena conclusão está longe de ser uma síntese de "felizes para sempre". Não. Tal como no longo caminho da série, também aqui há um pouco de tudo: histórias que acabaram bem, histórias que acabaram em tragédia e... bem... histórias que não acabaram de todo.
A impressão que fica é, por isso, a de um regresso breve e agradável, que podia, talvez, ter sido algo maior. Ainda assim, não deixa de ser uma leitura cativante e, para quem seguiu atentamente a série, um belo reencontro com velhos conhecidos. Gostei.

Título: After Dead
Autora: Charlaine Harris
Origem: Aquisição pessoal

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Se Conhecessem a Minha Irmã... (Michelle Adams)

Irini foi entregue à tia para que esta a criasse. Elle ficou com os pais. E Irini nunca soube ao certo o porquê da rejeição. Agora, a mãe morreu e uma inesperada chamada de Elle - de quem Irini passou os últimos anos a fugir - traz consigo o velho medo e uma nova esperança de descobrir a verdade. Mas, de regresso a casa para o funeral da mãe, Irini dá consigo perante novas perguntas e presa no mesmo círculo de amor e ódio que sempre a prendeu à irmã. Há algo de sombrio em Elle e Irini sabe isso como ninguém. Mas, quando a verdade finalmente vier à tona, nada voltará a ser o mesmo...
Narrado na primeira pessoa pela voz de Irini e acompanhando do mesmo modo o seu regresso e as suas dúvidas, a primeira coisa a prender neste livro é a intensa aura de mistério que surge logo das primeiras páginas. Elle e Irini podem ter sido separadas, mas cedo se torna claro que têm algo em comum. E este mistério - do porquê da separação, mas também de tudo o que as uniu e voltou a separar depois disto - desperta de imediato uma forte curiosidade em saber mais. Sobre o passado e sobre o que acontece a seguir.
Claro que este mistério é a raiz de toda a narrativa e há muitos momentos intensos, situações tensas e grandes revelações à espera ao longo do percurso. Mas o mais impressionante - e há, ao longo do enredo, vários momentos de grande impacto - vem mais das personagens que propriamente do enredo. Seria, talvez, fácil cair na tentação da irmã boazinha e da irmã malévola, mas o que acontece neste livro é algo de muito mais complexo. Elle tem sérios problemas - e o que a move, o que faz, o tipo de jogos a que se entrega - faz dela uma personagem perfeitamente adequada a um papel de vilã. E Irini, com o seu papel de rejeitada pelos pais, a sua vida distante, mas relativamente calma, tanto podia ser a vítima como a heroína (ou um pouco de ambas). Só que a verdade é sempre mais complexa - e é isso mesmo que a torna fascinante. Há medida que mais é revelado sobre as personagens, a distância que separa as duas irmãs é atenuada pelo que têm em comum. E, numa história com tanto de complexo e de sinuoso, o facto de as protagonistas serem também complexas e ambíguas só vem acrescentar valor.
E depois há o factor surpresa. Desde o início que há um mistério a desvendar e explicações que é preciso dar. O que não é propriamente expectável é a forma que essas respostas tomam no decorrer da narrativa e, principalmente, os meandros e ambiguidades subjacentes a essas respostas. Aliás, nem tudo tem uma resposta explícita. Mas, entre as verdades reveladas e o muito que fica implícito, a verdade é que tudo culmina numa resolução final tão intensa como adequada - em que os verdadeiros papéis de cada um ficam bem claros... bem como o facto de haver mais vida para lá desses papéis.
Intenso, tortuoso e sempre intrigante, trata-se, portanto, de um livro que prende desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. Uma história onde ninguém é o que parece - e muito menos o passado é tão simples como os factos parecem insinuar. Recomendo. 

Título: Se Conhecessem a Minha Irmã...
Autora: Michelle Adams
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 21 de novembro de 2017

The Living Memory (Tim Byrne e Emma Dyer)

Io tem um dom. A sua extraordinária memória permite-lhe reviver e reajustar tudo o que alguma vez viu, sentiu ou viveu. Mas um dia as suas explorações vão um pouco longe demais e Io dá por si expulsa da sua vida real e nas memórias de outra pessoa. Talia é a assistente de um mesmerista na Londres vitoriana e não parece ficar nada satisfeita com a sua hóspede – ou delírio – inesperado. Mas ambas partilham o mesmo dom e Talia pode fazer maravilhas com a sua memória. À medida que começam a descobrir o que têm em comum, o dom de Talia atrai atenções inesperadas. E não tarda a que Talia e Io se vejam envolvidas no meio de um duelo entre ciência e magia – ou na visão que alguém tem sobre ambas. Apanhadas nos meandros de duas organizações diferentes, Talia e Io têm de decidir o que querem fazer das suas vidas. Caso contrário, ficarão presas para sempre.
Narrado pela voz de Io, mas com um vasto cenário de tempos e imaginação, uma das primeiras coisas a impressionar neste livro é a extraordinária visão das memórias que evoca. Da memória enquanto algo fluido e mutável, mas também parte fundamental da alma. E isto é algo… bem, memorável – principalmente por dar vida a todo um novo mundo, com todos os seus perigos e maravilhas. O dom de Io é algo de especial e basta para intrigar desde o início. Mas, a partir do momento em que as suas capacidades se expandem para um cenário mais vasto, tudo se torna ainda mais impressionante. E Talia… bem, enquanto homóloga de Io, é óbvio que têm muito em comum. Mas também têm as suas próprias características e personalidades, e isso torna a história muito mais empolgante.
Io e Talia são a alma desta história, principalmente pois grande parte acontece dentro das suas memórias. Mas o próprio cenário é bastante impressionante, em primeiro lugar por seguir duas épocas muito diferentes, mas principalmente devido à intensidade do enredo. Mandeville, os Memento Mori, os Imortais… há tanto de fascinante nesta história que é difícil deixá-la para trás depois de terminada a leitura.
E há também uma mensagem muito positiva. Muitos dos problemas de Io – e de Talia também – vêm de terem escolhido fazer o que delas se espera ou o que pensam que deixará os outros felizes em vez do que realmente querem fazer. E o seu caminho é tanto de perigos e aventuras como de descoberta do que realmente querem. A vida é feita de escolhas – e as delas trazem consigo uma evolução impressionante.
Intensamente urdido, muitíssimo bem escrito e com uma história tão poderosa como as muito impressionantes personagens que nela vivem, a soma de tudo isto dá uma leitura muito intensa e fascinante, uma grande história sobre os labirintos da memória e a necessidade de fazer a diferença no presente e um livro que, sem dúvida alguma, recomendo.

Título: The Living Memory
Autor: Tim Byrne e Emma Dyer
Origem: Recebido para crítica

domingo, 19 de novembro de 2017

Através dos Meus Pequenos Olhos (Emilio Ortiz)

Cross é um jovem cão-guia pronto a conhecer o mundo no desempenho das suas funções. Mario é um jovem invisual que aguarda com expectativa a chegada do seu novo companheiro e guia. E juntos têm toda uma vida pela frente. Inseparáveis não só pela necessidade, mas principalmente pelo afecto crescente, Mario e Cross descobrem o mundo de uma forma diferente - com a confiança que os une a tornar mais fáceis de superar todas as barreiras. Mas o mundo nem sempre vê com bondade as diferenças dos outros - e também para superar isto toda a ajuda será necessária.
Um dos aspectos mais cativantes deste livro, e também parte da sua beleza, é o facto de a história ser contada por Cross. Cativante, porque Cross surge-nos como um protagonista divertido e descontraído, com o qual é fácil acompanhar os bons momentos e os maus e vê-lo crescer (bem como a Mario) de uma forma sempre surpreendente. Mas, acima de tudo, relevante. Porquê? Porque ao ver o mundo pelos olhos inocentes de Cross, tudo ganha um novo impacto - e isto aplica-se tanto à bondade das pessoas como à maldade. O resultado é que tudo ganha um maior impacto: o afecto e a alegria, mas também os obstáculos, cuja verdadeira importância só é verdadeiramente entendida por quem vive com eles.
A relevância é, portanto, indiscutível. Mas também há magia a acontecer nesta história: magia na pura simplicidade dos afectos, na relação cada vez mais forte entre Mario e Cross, nos muitos momentos divertidos ou empolgantes ou pura e simplesmente enternecedores que marcam o caminho dos protagonistas. E na verdade subjacente a tudo isto - no facto de, embora na vida real os cães não possam falar (pelo menos com palavras), aquilo que Cross vai contando ser absolutamente realista.
E isto leva-me ao ponto que me deixou sentimentos ambíguos. É certo que um cão-guia é muito mais do que um simples animal de estimação e, com o passar dos anos e o inevitável envelhecimento, torna-se necessário encontrar outro tipo de soluções. Mas tudo neste livro se encaminha para uma grande escolha e, dadas as opções apresentadas, não é propriamente fácil entender essa escolha. E, claro, por um lado, faz sentido. Mas, emocionalmente falando, ficam os tais sentimentos ambíguos e a ideia de que talvez pudesse ser de outra maneira.
Não que isto retire impacto a tudo o resto. Há em todo o percurso uma bonita jornada de crescimento - tanto para Mario como para Cross - e vários momentos marcantes ao longo do caminho. E há verdades difíceis, também, e uma inegável relevância que só sai reforçada pela simplicidade de uma escrita que parece ajustar-se na perfeição ao seu narrador. Nem tudo é perfeito? Não. Na vida, também não é. E, tal como na vida, também aqui há escolhas difíceis, nem sempre fáceis de entender - mas feitas tendo sempre em vista o melhor.
A imagem que fica é, portanto, a de uma história bonita, cativante e acima de tudo relevante. Uma chamada de atenção para os obstáculos com que os invisuais têm de lidar sob a forma de um romance terno, realista e com muitas boas surpresas pelo caminho. Gostei.

Autor: Emilio Ortiz
Origem: Recebido para crítica

sábado, 18 de novembro de 2017

Cartas a Um Jovem Escritor (Colum McCann)

Escrever um livro. Há quem ache que parece fácil. Há quem tente com todas as forças, mas não consiga suportar o resultado. Há os que fracassam, os que desistem, os que persistem, os que alcançam o sucesso. Mas há regras? Não propriamente. E muito menos se se pretender que a regra seja mais ou menos universal. Ainda assim, pode ser útil ver outra perspectiva. E se, em vez de regras, procurarmos conselhos... bem, a utilidade aí pode ser quase ilimitada. É isso precisamente que este livro apresenta: uma muito empolgante mistura de conselhos práticos e de pura e simples inspiração, sem nunca fazer com que as coisas pareçam mais fáceis do que realmente são, mas complementando a enumeração das dificuldades com várias orientações úteis e precisamente a dose certa de motivação. O resultado? Bem, muitas ideias relevantes... e uma mistura de nostalgia e de vontade irresistível de escrever. 
Comecemos pelo aspecto (aparentemente) mais simples: a forma. Basta o título para evocar Rilke e as suas Cartas a Um Jovem Poeta e é, na verdade, bastante fácil identificar pontos comuns como a simples (mas verdadeira) ideia de que ninguém pode apontar um único e derradeiro caminho certo. Ainda assim, é este ponto de partida que torna tudo tão interessante, pois, através dos seus curtos mas elucidativos capítulos, a autor conduz o seu jovem interlocutor através das múltiplas facetas da escrita (e da publicação também) sem nunca perder de vista que o que resulta para uns não resulta para outros. Ah, e mais importante, claro: o que realmente importa é o que está na página.
Ora, não havendo regras universais, será de pensar que a utilidade dos conselhos práticos é algo relativa. Talvez seja. Ainda assim, é sempre pertinente conhecer a visão e o percurso de alguém mais experiente. Mas, mais que os conselhos práticos - e sem lhes retirar a pertinência - há ainda um outro aspecto, e é esse que torna a leitura memorável: o lado inspirador destas pequenas (ou não tão pequenas) cartas. O retrato que o autor traça da escrita - penosa, angustiante, apaixonante, demanda de descoberta, missão através das palavras, apelo entre o silêncio, irresistível, irrevogável, essencial à sobrevivência - é algo com que muitos jovens (e menos jovens) escritores, aspirantes a escritores ou simples apaixonados pela literatura poderão reconhecer como próximo do que sentem. E há nesse ténue fio entre a estranheza e a familiaridade algo de tão profundo e de tão inspirador que - escreva-se ou não, queira-se ou não escrever - fica-se com a sensação de estar agora mais perto da palavra escrita.
E depois há citações. Não, não me refiro apenas às que abrem cada capítulo e que, ao acrescentarem a perspectiva de outros autores, tornam tudo ainda um pouco mais memorável. É que ao longo das próprias "cartas" há várias frases poderosas que, além de reforçarem o impacto da ideia, realçam em si mesmo a tal beleza etérea da literatura - que parece ser, afinal, a raiz de tudo o resto.
Conselhos e inspiração. É isto que o livro promete - e é precisamente o que apresenta. Cativante e esclarecedor, consegue, ao mesmo tempo que percorre os aspectos práticos da escrita, realçar o que nela existe que motiva e que apaixona, despertando (de novo) a vontade de voltar à página em branco e dar-lhe voz. Não há regras universais? Não, não há. Mas há formas de olhar a escrita que incitam a descobrir nela uma nova faceta. E essas estão bem presentes neste muito relevante livro. Recomendo.

Título: Cartas a Um Jovem Escritor
Autor: Colum McCann
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Último Beijo da Mamba Verde (Cesário Borga)

É na cantina de Salima que todos se encontram - militares, pides, estrangeiros, prostitutas - e é por lá que, entre festejos e bebidas, a guerra vai passando, deixando as suas marcas numas quantas vidas perdidas, mas, ainda assim, relativamente remota. Mas os tempos têm-se tornado mais perigosos e as relações cada vez mais complexas. Tudo começa com a relação proibida entre um rodesiano e uma prostituta negra. Aparentemente inocente, é mais que o suficiente para acicatar ódios latentes e avivar o fogo de uma guerra cada vez mais próxima. E, entre a paz aparente da cantina e os ataques cada vez mais perigosos, Salima dá por si apanhado no meio do caos, principalmente quando, após um ferimento, é levado para um hospital e aí encontra a mulher que lhe despertará o mais forte amor - e o mais fundo desejo de vingança.
Narrado pela voz de Salima e centrado, acima de tudo, na sua perspectiva do que o rodeia, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela capacidade de exprimir com toda a naturalidade não só as impressões e sentimentos do protagonista, mas o estado de espírito geral daqueles que o rodeiam. Enquanto cantineiro, Salima convive com todo o tipo de gente e, talvez por isso, as suas impressões são vastíssimas. Além disso, a própria estrutura do romance propicia esta visão mais ampla, pois começa a partir de uma teia de vários elementos, para se ir depois centrando gradualmente num ponto focal mais nítido, mas, em certa medida, formado por tudo o que vem de trás.
Também muitíssimo marcante neste livro é a forma como, da humanidade de algumas personagens e da crueldade de outras, consegue sobressair não só uma história repleta de emoções fortes, mas também um romance cheio de temas pertinentes. As atrocidades da guerra, o racismo, o preconceito que move à crueldade gratuita e a influência dos poderosos que faz com que a alguns tudo seja permitido são apenas alguns dos muito importantes aspectos que emergem da leitura deste livro. E também eles emergem com naturalidade, por actos mais do que por palavras, o que lhes realça, naturalmente, o impacto que têm nas personagens e no leitor.
E depois, claro, há o impacto dos momentos propriamente ditos e a forma como, do que parece ser uma interacção aparentemente tranquila, emergem as raízes de uma crueldade maior. Há, nos momentos de alegria, uma estranha leveza que apenas potencia o impacto dos momentos cruéis. E, à medida que a narrativa se vai tornando mais sombria, como a vida do próprio protagonista, este contraste torna-se ainda mais evidente, reforçando a impressão de que tudo pode perder-se num só momento.
A imagem que fica é fascinante: por um lado, o percurso cada vez mais avassalador de uma guerra que se aproxima inexoravelmente; por outro, uma jornada emocional da descontracção à devastação. E, no fim, é isso mesmo que impressiona neste livro: a capacidade de nos fazer percorrer um caminho tão complexo como o das personagens e do contexto em que se movem. No fim, é isso que fica na memória. E a soma de tudo é algo de muito bom.

Título: O Último Beijo da Mamba Verde
Autor: Cesário Borga
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Divulgação: Novidade Presença

Nicola Yoon
Colecção: Ficção Juvenil n.º 26
Título Original: The Sun is also a star
Tradução: Isabel Maria Pettermann Frausto
ISBN: 978-972-23-6128-6 
Páginas: 352

A história de uma rapariga, um rapaz e o universo.
Natasha: Sou uma rapariga que acredita na ciência e nos factos. Não acredito no destino. Ou nos sonhos que nunca se concretizam. Não sou de todo aquele tipo de rapariga que encontra um rapaz simpático numa rua nova-iorquina cheia de gente e se apaixona por ele. Não quando a minha família está a doze horas de ser deportada para a Jamaica. Apaixonar-me por ele não será a minha história.
Daniel: Sou o bom filho, o bom estudante, correspondendo sempre às elevadas expectativas dos meus pais . Nunca fui o poeta. Ou o sonhador. Mas quando a vejo, esqueço tudo isso. Algo em Natasha faz -me pensar que o destino nos reserva, a ambos, alguma coisa muito mais extraordinária.
O universo: Cada momento das nossas vidas conduziu-nos a este momento único. Há um milhão de futuros perante nós. Qual deles se tornará realidade?

Nicola Yoon é autora de Tudo, Tudo... e Nós, o romance bestseller # 1 do jornal New York Times, que vendeu mais de um milhão de exemplares. Cresceu na Jamaica e em Brooklyn e vive atualmente em Los Angeles com a família. É uma romântica irremediável, acreditando firmemente que podemos apaixonar-nos num momento que poderá durar para sempre. Os direitos de O Sol Também é uma Estrela foram adquiridos por editores de mais de 30 países.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Distância de Segurança (Samanta Schweblin)

Às portas da morte e com a mente turvada, Amanda não tem senão um emaranhado de memórias confusas - e um estranho companheiro para a ajudar a recordar. Ao seu lado, David, uma criança, incita-a a procurar respostas com uma série de perguntas tão urgentes quanto misteriosas, guiando-a através de um passado também ele turvo, mas onde parece estar escondida a única verdade que importa. E as memórias vêm, como fragmentos atados - memórias de umas férias onde se fez uma nova amizade, de uma amizade que trouxe consigo um segredo sombrio e de uma partida adiada que abriu portas a um veneno sem nome. Presente sempre, a distância de segurança que insiste em unir uma mãe à sua filha, mesmo quando tudo indica que, na verdade, já é tarde demais...
Há algo de estranhamente fascinante na forma em como, de uma história tão breve, se consegue fazer emergir uma tão vasta complexidade. São pouco mais de cem páginas e, no entanto, há todo um mundo a descobrir no desfiar das memórias de Amanda. E um mundo de mistérios, entenda-se, pois, se o que move a protagonista é o simples e insuperável amor protector de uma mãe, o estranho cenário onde tudo parece acontecer desperta grandes e pertinentes perguntas. Afinal, a doença de Amanda, o misterioso passado de David, as estranhas decisões de Carla... em tudo isto há grandes enigmas - e nenhuma verdade absoluta (como não as há, de resto).
E, claro, tendo isto em conta, é inevitável a sensação de que ficam perguntas sem resposta. Mas também particularmente impressionante é que o facto de tudo isso ficar sem resposta só acrescenta à intensidade da narrativa, pois, sendo tudo tão estranhamente peculiar, faz apenas sentido que também as grandes tragédias pessoais das personagens sejam deixadas entre a explicação possível e a verdade maior que, embora presente, fica encoberta.
Mas há ainda a escrita, e uma escrita que impõe ainda uma nova repetição do mesmo adjectivo: impressionante. Directa, de uma simplicidade aparente mas com um ritmo avassalador, reforça ainda um pouco mais a intensidade que as circunstâncias já lhe conferem. E adensa também o mistério, pois a presença de David junto de Amanda - sentida ao longo de todo o seu percurso - ganha outra vida pelo facto de se assumir como um longo diálogo, onde todas as interrogações parecem querer encaminhar-se para uma derradeira revelação.
Breve no tamanho, mas imenso no conteúdo, eis, pois, mais uma daquelas leituras que reforçam a ideia de que um livro não precisa de ser grande para ser um grande livro. Intenso, complexo e impressionante em múltiplos aspectos, um livro para ler de uma assentada - e para guardar na memória bem depois de terminada a leitura. Recomendo.

Título: Distância de Segurança
Autora: Samanta Schweblin
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

E Se Eu Fosse Deus? (Fernando Correia)

E se eu fosse Deus? É essa a pergunta que serve de ponto de partida a uma primeira conversa - a que abrirá todas as portas para o lado desconhecido da cidade. Quem pergunta é Henrique, um sem-abrigo que quer mostrar ao narrador - já que ele quer descobrir - como são complexos e sinuosos os meandros das vidas de quem vive nas ruas. E, através de Henrique, abrem-se os olhos para a descoberta: a descoberta de que há um lado sombrio escondido na cidade e tantas vidas perdidas a precisar de ajuda. E, pelo caminho, há também a filosofia de perguntar qual é o Deus que tudo isso observa - e se um Deus diferente, mais humano, podia fazer com que as coisas fossem diferentes.
Embora seja identificado como sendo um romance, uma das primeiras impressões a emergir deste livro é que não se enquadra perfeitamente nessa categoria. Primeiro, porque, ao basear-se num percurso de procura de histórias reais, se centra mais na expressão desses testemunhos do que propriamente numa história de natureza ficcional. E, além disso, há uma forte componente de análise social e filosófica que distancia um pouco o texto da narrativa pura e simples, para o tornar mais numa exposição e análise de factos (difíceis).
Se isto retira impacto ao livro? De forma alguma. Os testemunhos - e as duras verdades que lhes estão subjacentes - realçam em si mesmos a enorme importância do tema e, além disso, ao unir todas estas histórias no percurso de Henrique, o autor confere à leitura uma envolvência maior. Sim, os pensamentos filosóficos e a oscilação entre múltiplos percursos tornam o ritmo da leitura um pouco mais pausado e mais distante. Mas a pertinência das questões? Está toda lá.
E, ainda que a história seja essencialmente um meio para um objectivo maior, há ainda assim rasgos de emotividade que conseguem ser, afinal, pura magia. Henrique, força motriz de tudo o resto, divindade terrestre que, à sua maneira, também tudo vê, pode funcionar como veículo para todas as outras histórias, mas tem também a sua. E essa - e particularmente a forma como tudo termina - acaba por aumentar em muito o impacto de todo o percurso. Percurso que, sendo afinal de duras verdades, caminha constantemente sobre a fina barreira entre a esperança e o desespero - barreira essa que é também, de certo modo, tocada no final.
Nem sempre fácil, mas sempre relevante, eis, pois, um livro que importa ler - pelas histórias e pela verdade escondida em todas elas. E por Henrique também, e a sua estranha forma de divindade que mostra a vida nos seus meandros mais sombrios.

Título: E Se Eu Fosse Deus?
Autor: Fernando Correia
Origem: Recebido para crítica

sábado, 11 de novembro de 2017

O Aniversário do Adrien (ZAG)

O Adrien faz anos, mas o pai, rígido e ausente, recusa-se a deixá-lo fazer uma festa. Ora, o seu melhor amigo não acha que isso seja justo e isso torna-o vulnerável à influência do Falcão-Traça. Surge assim o Bolhas, que quer livrar o mundo dos adultos... e de todos os que não quiserem divertir-se. E embora esta seja para o Adrien a oportunidade de ter a festa que sempre quis, mais cedo ou mais tarde, o Bolhas tem de ser travado. E só a Ladybug e o Gato Noir podem fazê-lo.
Sendo este já o quarto livro da série - e sendo a fórmula essencial em tudo semelhante à dos anteriores - a verdade é que não há nada de muito novo a dizer sobre este livro. O que há é um aspecto comum que nunca deixa de ser uma surpresa: é que, apesar de ser o quarto livro, e de seguir precisamente a mesma linha narrativa, a aventura nunca deixa de cativar. É fácil entrar no espírito da história, torcer pelas personagens, sentir os dilemas, mesmo tendo sempre presente a ideia de que, no fim, tudo acabará bem e, no geral, desfrutar de mais uma aventura descontraída do Gato Noir e da Ladybug. E, se tivermos em conta o público preferencial deste livro, esta capacidade de cativar sempre do início ao fim - e quer miúdos, quer graúdos - torna-se um aspecto particularmente notável.
Além disso, há uma pequena e interessante evolução de livro para livro. É que, à medida que se começam a conhecer melhor as personagens, a empatia também cresce um bocadinho mais. Neste caso, a vida familiar de Adrien faz com que lhe seja mais difícil tomar a decisão certa, o que, além de tornar a história mais empolgante, acaba por transmitir também uma mensagem positiva: a da importância de fazer a escolha certa, quando se está entre fazer o que está certo e o que é mais fácil.
E depois, claro, há os aspectos do costume: as imagens, cheias de cor e que complementam os diálogos na perfeição; a história sempre cheia de acção, que ganha outra vida nas imagens; e o divertido contraste entre um par de heróis sempre prontos para tudo - e as figuras por trás da máscara... não tão prontos assim.
Tudo somado dá a habitual mistura de acção e diversão, numa história cativante e descontraída capaz de surpreender jovens e adultos, fãs da série e quem nunca a viu. Cheio de cor, cheio de diversão e muito cativante, um bom livro para leitores de todas as idades.  

Título: O Aniversário do Adrien
Autores: ZAG
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

As Duas Vidas de Sofia Stern (Ronaldo Wrobel)

Nascida na Alemanha em 1919, Sofia Stern fugiu para o Brasil quando a guerra estava prestes a começar e nunca mais de lá saiu. Agora, a memória começa a falhar-lhe - ou a trazer-lhe fantasmas do passado - e, preocupado com ela, o neto decide investigar. Mas as respostas que encontra são tudo menos as esperas e um telefonema de uma juíza alemã leva-o a convencer a avó a voltar ao lugar onde cresceu. Lá, esperam-na a história de uma amiga perdida, os restos de de um amor inacabado... e uma verdade difícil de confessar.
Oscilando entre diferentes vozes e períodos temporais distintos, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela aura de mistério. Há todo um segredo escondido no passado de Sofia Stern e a forma como a história se desenrola, evocando diferentes momentos do seu percurso ao mesmo tempo que vai mantendo em suspenso as respostas para as grandes perguntas, mantém sempre viva a curiosidade em saber o que vem a seguir. Além disso, se Sofia é um enigma, é-o pelas acções e pelos segredos que guarda e, assim sendo, a relativa simplicidade com que tudo é contado acaba por criar um contraste interessante entre a simples fluidez da escrita e as complexidades imprevistas da história.
Claro que, embora esta seja uma história particular, são inevitáveis as considerações gerais, tendo em conta o período em que decorre. E também neste aspecto emerge o mesmo contraste: por um lado, tudo é contado com a máxima simplicidade, focando-se nas personagens principais e contextualizando à medida que vai sendo necessário. Por outro, é do próprio percurso que emergem as perguntas centrais, com a delicada posição de Sofia a enfatizar o tipo de atrocidades cometidas na época em que a história decorre.
Mas voltando ao mistério. Ou mistérios, pois, na verdade, há vários elos entrelaçados ao longo desta história: Hugo, Klara, a própria Sofia, a delicada situação do processo judicial. De tudo surgem perguntas e até mesmo de cada resposta dada. E é aqui que surgem alguns sentimentos ambíguos, pois, se a grande resposta é efectivamente dada - e dificilmente poderia sê-lo de forma mais intensa - ficam, ainda assim, várias questões em aberto, algumas delas deixando uma certa sensação de insatisfação, pois há na história quem merecesse um final um pouco diferente. Não deixa de fazer um certo sentido, ainda assim - ou não fosse aquele um tempo de perdidos e desaparecidos para sempre.
A impressão que fica é, portanto, a de uma história de aparente simplicidade, mas de relações complexas e grandes mistérios revelados. Cativante, intrigante e surpreendente, um livro que é, acima de tudo, a história das suas personagens, mas nunca esquecendo o contexto em que se movem. Gostei.

Autor: Ronaldo Wrobel
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Rapaz que Contava Histórias (Zana Fraillon)

Subhi não conhece outro mundo que não o delimitado pelas cercas do campo de refugiados. Ainda assim, traz consigo todos os sonhos do mundo e, embora vivendo com muito pouco, encontra nas histórias um sentido para a sua vida. Até que, um dia, o tamanho do mundo expande-se. Um buraco na vedação leva-o a conhecer Jimmie, que vive do outro lado do campo e tem um caderno deixado pela mãe que está cheio de histórias que ela não consegue ler. E, a cada nova história partilhada, cria-se uma proximidade mais forte que todas as cercas que o separam - e a certeza da liberdade ali tão perto.
Pese embora a relativa brevidade e a inocência que a voz de Subhi confere a todo o enredo, este não é propriamente um livro fácil de digerir. Primeiro, porque a impressão inicial é de alguma confusão. Confusão essa que faz todo o sentido, entenda-se, tendo em conta as circunstâncias do protagonista, mas que, ainda assim custa um bocadinho a assimilar, de início. E depois porque o tema em si, e a realidade que reflecte, é em si mesmo muito duro - tal como são os episódios que lhe dão forma.
Dito isto, dificilmente poderia ser um livro mais relevante. A fazer lembrar um pouco O Rapaz do Pijama às Riscas, na medida em que apresenta também dois mundos em colisão, este livro põe em destaque as verdades mais simples e mais cruéis de uma das questões mais relevantes do nosso tempo. As dificuldades da vida de Subhi no campo de refugiados e o caos em que por vezes se move tornam bem claros os obstáculos levantados à diferença. E a forma como o enredo evolui apenas põe mais em evidência estas barreiras, seja nas simples diferenças que separam Subhi e Jimmie, seja nos obstáculos externos que se contrapõem à amizade de ambos.
E assim surge um contraste impressionante: o da inocência do protagonista face à crueldade da situação. Contraste que se nota, desde logo, na voz que conta a história e que vai ganhando intensidade à medida que as dificuldades se sucedem, culminando num final de abalar a memória... e ficar de coração apertado.
Pertinente, actual, repleto de emoções fortes e com uma visão maravilhosa do valor da amizade mesmo nos tempos mais negros, pode não ser propriamente a mais leve das leituras. Mas uma coisa é certa: passada a confusão inicial, as qualidades que moldam uma leitura marcante estão todas bem presentes neste livro. Gostei.

Título: O Rapaz que Contava Histórias
Autora: Zana Fraillon
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Patrulha Pata: Todos Juntos! (Nickelodeon)

Nada é impossível para a Patrulha Pata. E talvez seja esse um dos motivos porque esta série é tão cativante para os mais novos. Daí que faça todo o sentido expandir o universo dos desenhos animados para outros meios - até porque reencontrar personagens de que se gosta num livro pode ser um belíssimo incentivo à leitura. E se houver algo de novo? Melhor ainda.
É precisamente isso que acontece neste livro, que junta a duas histórias simples e divertidas um belo conjunto de actividades para os mais novos. Labirintos, páginas para colorir, jogos de atenção e de procura das diferenças... há uma muito agradável diversidade de opções neste livro, tendo sempre como base os simpáticos cachorros da Patrulha Pata. E, assim sendo, a impressão que fica é a de uma boa forma de ocupar o tempo - e passar bons momentos de brincadeira - com os mais novos.
Além disso, ao ser, ao mesmo tempo, um livro de histórias e um conjunto de actividades, este livro acaba por juntar o melhor dos dois mundos, apelando à criatividade e à energia de fazer coisas novas ou simplesmente brincar e à (também criativa) tranquilidade de entrar no mundo de uma boa história. Em ambas as facetas, há muita cor e diversão à espera dos jovens leitores - daí que a imagem global seja precisamente a de um todo muito cativante.
Claro que será um livro mais interessante para os pequenos leitores que já conheçam bem a série de desenhos animados. Mas, caso não conheçam, é também possível ficar a conhecer as personagens a partir das breves apresentações e das duas histórias contidas neste livro. O que, mais uma vez, acaba por conjugar o melhor de dois mundos: para quem conhece, é um reencontro. Para os que ainda não conhecem, é uma descoberta.
Mistura de desafio e de entretenimento, a impressão que fica deste livro é, pois, a de uma boa oportunidade de estimular a curiosidade dos mais novos - ao mesmo tempo que se desperta o sempre valioso gosto pela leitura. Para fãs (e futuros fãs) da Patrulha Pata, um belo livro para acrescentar à colecção.

Título: Patrulha Pata: Todos Juntos!
Autor: Nickelodeon
Origem: Recebido para crítica

domingo, 5 de novembro de 2017

O Espírito da Ilha (Rodrigo Caiado)

Dividido entre regressar a um manuscrito que deixou de fazer sentido e enterrá-lo de vez, Pedro escolhe tomar a decisão através de um jogo de xadrez. Para tal, preparou-se com as jogadas de um grande mestre e decidiu que, caso vença a memória do seu falecido amigo, se livrará, de uma vez por todas, daquele manuscrito. Mas eis que, quando a vitória está próxima, o sono o domina, levando-o de volta às longas conversas com o amigo e às aventuras de um grupo de velhos conhecidos. Em tempos, eles descobriram uma ilha onde fenómenos estranhos acontecem. E essas histórias, que eles partilharam com Alberto e Alberto partilhou com Pedro, continuam a querer ser contadas - mesmo que Pedro não queira fazê-lo.
Muitíssimo descritivo e centrado, em grande medida, nas paisagens e fenómenos peculiares que caracterizam a ilha, este é um livro que exige o seu tempo para assimilar todos os pormenores. Primeiro, porque há uma profusão de elementos nos cenários que só gradualmente se tornam perceptíveis. E, depois, porque o próprio entendimento das personagens vai sendo moldado por uma sucessão de acontecimentos inexplicáveis, por vezes confusos, que fazem do cenário de toda esta narrativa um ambiente estranho e sobrenatural.
Assim sendo, custa um bocadinho entrar no ritmo da história, até porque, no início, tudo está envolto em mistério. Mas é também este mistério que mantém acesa a curiosidade, mesmo quando tudo parece demasiado estranho. E, à medida que se assimilam as peculiaridades da narrativa e se começa a entrar na senda do mistério, tudo se torna mais cativante, surgindo como que um crescendo de intensidade que culmina num final tão surpreendente quanto adequado.
Mas, se a história em si vive muito dos fenómenos estranhos e da beleza sobrenatural da paisagem, há, ainda assim, um outro aspecto a emergir de todo este percurso. É que, da oscilação entre crença e cepticismo de Pedro e Alberto e, depois, da percepção da estranha realidade das coisas, emerge também um tema relevante: o da destruição de locais que não são apenas belos, mas também fundamentais, em nome da simples ambição. O espírito da ilha - e a protecção da natureza nela contida - levantam uma questão muito pertinente: quando se sacrifica a natureza ao lucro, o que restará quando a última árvore tiver sido cortada?
Não é propriamente uma leitura compulsiva. O ritmo pausado e a vastidão de pormenores exigem tempo para que tudo se assimile devidamente. Ainda assim, a impressão que fica é a de um enredo cativante, com uma mensagem pertinente e uma aura de mistério e de magia que dá lugar a umas quantas boas surpresas. 
Tudo somado, a imagem que fica é muito simples: a de uma história que leva o seu tempo, mas que não deixa de proporcionar uma boa leitura.

Título: O Espírito da Ilha
Autor: Rodrigo Caiado
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Vidas Finais (Riley Sager)

Dez anos depois do massacre no Chalé dos Pinheiros, Quincy Carpenter, a única sobrevivente, julga ter, tanto quanto possível, uma vida normal. Mas a relativa estabilidade da sua vida está prestes a ser abalada. Primeiro, chega a notícia de que Lisa Milner, também ela única sobrevivente de um massacre e alguém que, em tempos, a tentou ajudar, terá cometido suicídio. E depois surge-lhe à porta a terceira Última Vítima. Samantha Boyd vem com a intenção de conhecer Quincy - e, acima de tudo, de descobrir se é verdade que ela não se lembra do que aconteceu. E, incapaz de compreender as verdadeiras intenções de Sam, mas guiada por um conhecimento de que há algo de errado a acontecer, Quincy dá por si a fazer o que nunca fez - e a voltar inexoravelmente ao passado que nunca desejou recordar...
Narrado em grande parte pela voz de Quincy - embora com as ocasionais interrupções para uma viagem ao passado esquecido - este é um livro que prende, em primeiro lugar, pela intensidade. Intensidade na forma como dá voz aos pensamentos da protagonista, intensidade no choque entre o passado tenebroso e as tentativas mais um menos falhadas de o superar e, acima de tudo, intensidade numa teia de acontecimentos em que cada revelação abre espaço a novas perguntas e todos os acontecimentos constituem uma escalada de emoção que culmina num final poderosíssimo.
Ora, o resultado de toda esta intensidade é... viciante, para dizer o mínimo. É absurdamente fácil entrar na cabeça de Quincy e acompanhar o seu percurso rumo ao passado. Sentir-lhe a relutância, a confusão, a perplexidade, a fúria. Compreender-lhe a vontade de agir ou a impotência face às acções dos que a rodeiam. E, à medida que as verdadeiras intenções - ou os segredos longamente guardados - vão surgindo à superfície, também os acontecimentos ganham um novo impacto. Junte-se a isto a fortíssima aura de mistério que tudo cobre - mistério sobre o que aconteceu no Chalé dos Pinheiros E sobre as verdadeiras intenções de Samantha - e o resultado é um livro quase impossível de largar.
Mas há mais. Há a capacidade de construir um enredo onde história e personagens escondem elementos complexos, mas onde há um instinto praticamente irresistível de descobrir o que acontece a seguir. Há também o contraste entre a Quincy vulnerável do passado e a Quincy do presente que, pese embora as circunstâncias, se tornou alguém diferente. E há ainda o delicado equilíbrio entre elementos profundamente sinistros, rasgos de relativa emotividade e até mesmo um pequeno toque de leveza (principalmente na fase inicial) a contrastar com os tais segredos sombrios enterrados (ou não) bem fundo no passado.
E as páginas voam com uma naturalidade tal que dá vontade de parar o mundo para continuar a ler mais um bocadinho. E, no fim, fica-se com a impressão de uma aventura impressionante e perigosa, cheia de segredos e de surpresas e de revelações. E com vontade de ler mais, mas também com a muito satisfatória sensação de que tudo termina exactamente como devia.
Intenso, explosivo, cheio de surpresas e de mistérios, mas, acima de tudo, com um olhar deveras impressionante sobre os tipos de monstros escondidos na mente de cada um, eis, pois, um livro a não perder para quem gosta de enredos sombrios e de histórias - e personagens - conturbadas. Brilhante em todos os aspectos, um livro que recomendo incondicionalmente. Leiam, sim?

Título: Vidas Finais
Autor: Riley Sager
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Divulgação: Novidade Topseller

Um homem enforcado, uma mulher brutalmente assassinada, um denominador comum.
Após ter descoberto uma verdade perturbadora e violenta sobre o seu passado, Olivia Rönning decide adiar o que poderia ser uma promissora carreira na Polícia. É então que o pai da sua amiga Sandra Sahlmann, um funcionário da alfândega em Estocolmo, aparece enforcado em casa.
À primeira vista, tudo aponta para suicídio. Olivia, porém, sente que algo não bate certo. Ela sabe que não se deve envolver, mas o caso torna-se demasiado pessoal.
Em simultâneo, uma mulher é brutalmente assassinada em Marselha, França. Trata-se de Samira Villon, uma ex-artista de circo cega que fazia filmes pornográficos para sobreviver. Sem saber o que o espera, Tom Stilton, um ex-inspector da Polícia com quem Olivia colaborou no passado, é arrastado para este caso.
Duas mortes aparentemente desligadas entre si juntam novamente Olivia Rönning e Tom Stilton numa investigação de contornos surpreendentes. Conseguirão eles resolver ambos os casos e impedir que mais pessoas tenham destinos trágicos?

Cilla e Rolf Börjlind são um casal de autores bestsellers suecos, cujas obras retratam uma  sociedade repleta de conflitos sociais.
Figuram entre os argumentistas mais aclamados da Suécia, sendo autores de 26 guiões de policiais e thrillers para cinema e televisão.
Maré Viva, o primeiro thriller dos autores que a Topseller lançou, recebeu arrebatados elogios por parte da crítica, tendo os seus direitos sido vendidos para 30 países.
A Topseller orgulha-se agora de dar a conhecer aos leitores portugueses A Terceira Voz, o thriller seguinte desta dupla maior da literatura escandinava.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Sou dos Anos 80 - Não Tenho Medo de Nada (Joana Emídio Marques)

Ah, os anos 80... O tempo em que tudo, desde os desenhos animados às brincadeiras de rua, a música, as séries, até as simples tropelias no recreio... tudo, mas mesmo tudo, falava de aventura. Um tempo em que nem tudo estava ao alcance e muito menos era fácil de obter - mas em que a liberdade se gritava aos quatro ventos e tudo era bem menos analisado. Crescer nos anos 80 podia implicar um ou outro braço partido de uma aventura mais perigosa - mas trazia também a certeza de não ter medo de nada (ou, pelo menos, não o admitir). E o que é certo é que as memórias desse tempo continuam a despertar nostalgia a quem o viveu.
Olhando para o mundo como o vemos hoje, e para todas as mudanças que ele trouxe, é difícil não pensar no passado com uma certa mistura de distância e nostalgia. Mas, para quem passou por experiências como a de tentar reanimar uma cassete com uma caneta ou de trautear ininterruptamente a música do genérico do Dartacão, esta viagem ao passado dificilmente poderia ser mais promissora. E, em jeito de contextualização, começo por dizer que eu cá sou do ano da graça de 1986, o que significa que vivi o suficiente desta era para lhe sentir a nostalgia, embora não conhecendo todas as referências citadas neste livro. O que me põe numa posição particularmente agradável: a de, por um lado, lembrar as coisas que, de alguma forma, marcaram a minha infância e, por outro, a de descobrir coisas que não cheguei a conhecer.
Ora, desta posição privilegiada, consigo ver o atractivo deste livro como tendo duas facetas. Por um lado, para quem viveu os anos 80, como uma fonte de nostalgia e de memórias agradáveis. Para quem não os viveu, como uma jornada de descoberta do passado - com todas as suas peculiaridades e bizarrias que foram precisamente o que o tornou tão único.
E isto leva-me ao que é, para mim, o grande ponto forte deste livro: o equilíbrio entre a experiência pessoal e as muitas referências que vão sendo faladas ao longo do livro. Mais que um enumerar de peculiaridades, este livro surge como um percurso pessoal, como que abrindo portas às memórias que a autora tem em comum com muitos outros filhos desta era. E este registo pessoal reforça a tal nostalgia, evocando os sentimentos que estas memórias provocam, sem nunca perder de vista o cuidado de de explicar os pontos marcantes a quem teve a infelicidade de nunca os conhecer.
Claro que o texto em si bastaria, com todas as suas referências conhecidas, para despertar essa tal estranha nostalgia. Mas há ainda todo um visual a complementar esta visão: o livro é, em si mesmo, um espelho das referências dos anos 80, com as imagens que acompanham o texto e os padrões cheios de cor de todo o livro a reforçar esse impacto na memória. E, com tanto para recordar e uma forma tão cativante para o fazer, difícil é não recuar no tempo, pelo menos por um bocadinho.
Eis, pois, um livro para recordar - ou para descobrir - uma era diferente de tudo o que veio depois. Um tempo de coisas mais simples, talvez, mas de que basta uma pequena memória para despertar todo um carrossel de nostalgia. Se são dos anos 80 - e também não têm medo de nada! - então este é o livro ideal para recordar. E se não são, mas querem saber como foi, então estas páginas são um belo ponto de partida. Recomendo.

Título: Sou dos Anos 80 - Não Tenho Medo de Nada
Autora: Joana Emídio Marques
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

MAL ME QUER
O corpo sem vida de uma mulher é encontrado no meio da estrada. À primeira vista parece tratar-se de um acidente trágico, mas quando a inspectora Helen Grace chega ao local do crime, torna-se claro para ela que a mulher foi vítima de um assassínio a sangue-frio sem razão aparente.
BEM ME QUER
Duas horas depois, do outro lado da cidade, um empregado de loja é morto, enquanto os seus clientes escapam ilesos.
MAL ME QUER
Ao longo do dia, a cidade de Southampton viverá um clima de terror às mãos de dois jovens assassinos, que parecem matar ao calhas.
BEM ME QUER
Para a inspectora Helen Grace, este dia vai tornar-se uma corrida contra o tempo. Quem vive? Quem morre? Quem será o próximo? O relógio não para…
Se Helen não conseguir resolver este quebra-cabeças mortal, mais sangue será derramado. E, se cometer algum erro, poderá muito bem ser o dela…

M. J. Arlidge trabalha em televisão há 15 anos, tendo-se especializado em produções dramáticas de alta qualidade. Nos últimos anos produziu um grande número de séries criminais passadas em horário nobre na ITV, rede de televisão do Reino Unido.
Escreveu uma nova série policial para a BBC, além de estar a criar novas séries para canais de televisão britânicos e americanos.
Os seus livros anteriores — Um, Dó, Li, Tá, À Morte Ninguém Escapa, A Casa de Bonecas, A Vingança Serve-se Quente, Na Boca do Lobo e O Anjo da Morte — também publicados pela Topseller, foram êxitos de vendas internacionais.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Os Sonetos Completos (Antero de Quental)

Procura o ideal e o absoluto - para encontrar apenas silêncio e escuridão. Fala com um deus que não sabe bem se existe. Contempla as trevas e a luz por entre o peso da vida. E sonha, ainda e sempre, com um amor que se afasta. Tudo isto e mais se poderia dizer sobre o sujeito destes sonetos - alguém que, embora fale como um eu, é uma voz mais ampla que a do indivíduo. E talvez seja precisamente isso que tanto fascínio exerce nestas páginas. O eu que poderia ser qualquer um de nós.
Em jeito de declaração de contexto, é preciso dizer, antes de mais, isto: Antero de Quental foi um dos autores que me cativou para a poesia, no tempo em que poesia eram os versos dos manuais escolares e análise era a contagem das sílabas métricas e a classificação da rima. Talvez por isso, voltar a este autor, ler os sonetos como um todo, deixar falar as impressões mais do que a forma, tem um efeito particularmente marcante. Aquilo que já antes criava empatia desperta agora sentimentos mais intensos. E a sombra dos poemas compreende-se agora melhor, porque mais viva, porque mais fácil de entender.
Porque é de sombras que falamos e, quiçá por defeito pessoal, são os poemas mais sombrios os que se me tornam mais memoráveis. Há algo de facilmente reconhecido no vulto que questiona, que duvida, que não sabe muito bem o que faz. Mas há mais, também. É que, ao ler de uma penada este conjunto, fica-se com a imagem de um percurso: das ilusões do amor ao mergulho inefável no abismo e depois à contemplação do que para lá dele se estende. É como se fosse uma jornada pela vida - e uma jornada tão diferente, nas imagens evocadas, mas contudo tão familiar. 
É como percorrer pessoalmente os caminhos do tal Palácio da Ventura de um destes sonetos - o tal que, depois de toda a glória, contém em si "silêncio e escuridão - e nada mais!" Porque há em tudo isto uma estranha harmonia, uma beleza que se projecta das palavras e que, contudo, canta trevas e sombra como se do mundo se tratasse. No fim, é isto mesmo que mais marca: a forma como, até do "mais pálido, mais triste e mais cansado" consegue brotar uma beleza avassaladora e impressionante.
E o que dizer, então, sobre este livro? Para mim, foi um regresso pessoal a um lugar muito amado, ao mundo onde a poesia é muito mais que sílabas contadas - é um coração que fala por tantos mais. Recomendo este livro? Oh, com certeza. E vale tanto a pena conhecê-lo...

Título: Os Sonetos Completos
Autor: Antero de Quental
Origem: Aquisição Pessoal

domingo, 29 de outubro de 2017

Shimmer & Shine: Pede um Desejo

As gémeas Shimmer e Shine têm um poder genial: podem conceder três desejos por dia à amiga que considerarem perfeita para os receber. Para isso, criaram um frasco que foi parar às mãos da Leah, a amiga escolhida. Mas, novas nisto de realizar desejos, nem sempre as gémeas concedem exactamente aquilo em que a Leah estava a pensar. E o resultado acaba por ser... inesperado.
Magia e diversão nas medidas certas, com uma história simples e descontraída e personagens cativantes: assim se poderia descrever este pequeno livro, evidentemente vocacionado para um público mais novo (e talvez seguidor da série de desenhos animados), mas igualmente cativante em si mesmo e para leitores... vá, menos jovens. E o primeiro aspecto a sobressair é, mais uma vez, o visual, que, não sendo surpresa para quem conhecer a série, não deixa de cativar pela cor e pela forma como completa o texto, dando mais vida à história.
Porque, claro, o essencial é a história, não é? E também neste aspecto a impressão que fica é positiva. Não é nada de particularmente surpreendente numa história de génios que a realização dos desejos nunca corra exactamente como seria de esperar. Ainda assim, a forma leve e divertida como tudo acontece proporciona um bela aventura e bons momentos de diversão. Que mais se pode pedir a um livro destes?
E depois há a mensagem, também ela simples, mas muito positiva: a de que a amizade prevalece sobre os mal-entendidos e os pequenos desastres. Shimmer e Shine podem ser génios inexperientes, mas são amigas fiéis - e, no fundo, é isso que importa. Os amigos têm defeitos, mas são amigos. 
A impressão que fica é, portanto, a de um livro simples e colorido, com uma história cativante e personagens cheias de potencial para grandes aventuras. Divertido, agradável e com uma bela mensagem, uma boa leitura para os mais novos.

Título: Shimmer & Shine: Pede um Desejo
Autor: Nickelodeon
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Imagina Que Não Estou Aqui (Adam Haslett)

No dia em que viu o noivo pela primeira vez, Margaret estava longe de imaginar tudo o que viria depois. Durante o noivado, John foi internado devido a uma depressão e, posta perante a possibilidade de desistir de tudo ou de continuar, aceitando os problemas que daí poderiam advir, Margaret decidiu escolher o amor e seguir em frente com os seus planos. Agora, com três filhos e uma vida nem sempre fácil de gerir, novos fantasmas começam a vir à superfície. O marido, longe do sucesso financeiro que almejava, nem sempre consegue lidar com as suas sombras interiores. E Michael, o filho mais velho, parece já partilhar da companhia do mesmo monstro. São uma família, os cinco - mas que tipo de relação pode perdurar quando se carrega aos ombros um fardo tão pesado? E que fim poderá haver quando as sombras de cada um são os fantasmas de todos?
Narrado na primeira pessoa pelos vários elementos da família e centrado, acima de tudo, nos demónios e provações pessoais que lhes definem os caminhos, este não poderá nunca deixar de ser uma leitura difícil. E não se entenda por difícil que seja maçadora ou cansativa - muito pelo contrário. Embora a complexidade das relações se revele aos poucos e a das personagens exija algum tempo para as conhecer realmente, a dificuldade na leitura tem a ver precisamente com a intensidade: a intensidade de um labirinto emocional que molda vidas inteiras, de um percurso onde todas as vulnerabilidades doem e em que as penas das personagens facilmente se tornam perceptíveis ao leitor. É duro o caminho e nenhum dos passos é fácil. E isso transparece até no mais simples dos momentos.
Mas é precisamente esta dureza que torna a leitura tão marcante. Não há - nunca - a tentação de reduzir aos traços mais simples ao que é, no fundo, um percurso de uma complexidade avassaladora. Seja a doença de Michael, com todos os momentos de estranheza e de agonia em que ela se manifesta, a vulnerabilidade de Margaret, decidida a tudo fazer pelo filho, custe isso o que custar, ou a dificuldade de Alec e Celia em lidar com a situação do irmão ao mesmo tempo que tentam construir para si mesmos uma vida diferente, em todos estes aspectos há um labirinto profundo: de mágoas, de vulnerabilidade, de esperanças feitas desespero, de possibilidades vividas ou deixadas por concretizar. E tudo é complexo. Tudo é profundo. Desde o início pausado onde as peculiaridades começam a revelar-se ao final de pura angústia que, ao mesmo tempo, se assume como tremendo e inevitável.
E há ainda um outro aspecto que torna a leitura mais pausada - mas também muito mais fascinante. Além da complexidade inerente ao tema da doença mental, há ainda outros elementos relevantes a pautar o curso da vida das personagens, começando desde logo pelos interesses de Michael, mas estendendo-se também às relações dos irmãos e à forma como estas lhes condicionam a vida. Em todos estes aspectos há muitos detalhes a assimilar e, no caso da relação de Michael com a música, um mundo de referências mais ou menos fáceis de reconhecer. Ainda assim, e embora o enredo avance por isso a um ritmo mais lento, há ainda um outro efeito interessante em tudo isto: a visão de uma mente (no caso de Michael em particular) capaz de abranger tanto com tanto pormenor torna o seu percurso ainda mais impressionante. E a forma como tudo termina ainda mais memorável. 
Não, não é uma leitura fácil. Mas não haja dúvidas de que justifica todo o tempo e concentração exigidos para acompanhar esta longa jornada. Pois, na intensidade das mais difíceis emoções e na complexidade com que a todos torna vulneráveis, percorrer as páginas deste livro é olhar de frente uma das mais duras - e inevitáveis - facetas da vida: a tortuosidade do caminho e a inevitabilidade do fim. E essa é uma verdade dura, mas que facilmente se grava na memória. 

Autor: Adam Haslett
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Imagina que Não Estou Aqui, clique aqui.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Quando as Girafas Baixam o Pescoço (Sandro William Junqueira)

No lote 19, vivem muitas vidas umas sobre as outras: a Mulher Gorda quer comprar jacintos e a filha, a Rapariga Magra, aceita tudo menos ficar igual à mãe. O Velho sabe que não pode deixar que a morte o apanhe a dormir, enquanto o Homem Desempregado não sabe como saciar a fome a não ser com a memória de refeições passadas. E, entre estes e outros, a vida passa: para uns, traz vinganças e ligações de amor e ódio; para outros, a apatia do que se deixou de sentir. Ao lado, o lote 17 é um buraco à espera de construção - buraco como o das vidas que o observam ao passar.
Não é propriamente fácil traçar uma linha geral para este livro - e, contudo, ela está lá. A história nasce de uma multiplicidade de fragmentos, de pequenos momentos das vidas das várias personagens, como que vistos pelo olhar de alguma entidade distante. E, ainda assim, é incrivelmente fácil entrar na vida destas pessoas, querer saber mais - sobre o que as move, sobre o que são, sobre o que perderam. Tornam-se próximas, talvez precisamente por serem vistas aos poucos - pois o que é a vida senão uma sucessão de fragmentos entrelaçados na memória?
Também fascinante é a forma como todos estes pequenos momentos estão escritos, com a brevidade sintética de quem se cinge ao estritamente essencial. Narram-se os factos, expressam-se os pensamentos e os sentimentos como eles são, sem grandes elaborações nem divagações extensas. E, no entanto, este estilo sintético e preciso abre portas a uma mais ampla complexidade: há frases que contém em si mesmas uma verdade tão vasta que é quase incrível que tenham mesmo tão poucas palavras. E essas frases que ficam na memória, associadas aos pedaços de vida que, no seu conjunto, moldam um todo maior que a soma das suas partes, são o que tornam este mundo de peculiaridades tão real - e tão estranhamente familiar.
E há tantas vidas neste livro... Talvez seja também isso que o torna tão marcante. É que, ao acompanhar tantas personagens num livro tão breve, o autor realça precisamente aquilo que as torna únicas - e, ao mesmo tempo, o que nelas mais desperta interesse e empatia e solidariedade. No fundo, todas estas personagens têm algo de estranho - mas do tipo de estranheza que existe nos recantos mais cruéis da realidade. E, sendo certo que a vida não acaba no fim de uma história, também a história destas personagens não acaba: ficam coisas por dizer, futuros possíveis, bons ou maus. E este ponto de equilíbrio onde tudo termina - pondo fim a algumas coisas, mas deixando tantas outras por dizer - faz um estranho sentido nesta história em que todas as vidas são, por natureza, incompletas.
No fim, fica uma imagem intrigante: a de um livro que marca tanto por acontecimentos específicos como pela teia de sensações e de impressões que tece em torno deles. E é isto, aliás, que torna esta leitura tão memorável: um percurso que se faz vida nas pequenas coisas - e que continua no pensamento depois do fim. 

Autor: Sandro William Junqueira
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Divulgação: Novidade Clube do Autor

Do inferno da Europa em 1945 à Nova Iorque hippie, neste romance premiado com o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, Adélaïde de Clermont-Tonnerre conta a história dos anos loucos vividos na pele por dois genuínos filhos do século XX: Werner Zilch, nascido na Alemanha no estertor da Segunda Guerra Mundial, e Rebecca Lynch, herdeira de um homem de negócios e de uma mulher que logrou escapar com vida ao campo de concentração de Auschwitz. Uma paixão louca e proibida num cenário histórico repleto de reviravoltas e suspense.
Werner Zilch é um jovem carismático e empreendedor. Adotado desde tenra idade, vê-se confrontado com a descoberta das suas origens, tudo menos gloriosas. Aos olhos dos outros, pode ser considerado responsável pelos erros cometidos pelos seus antepassados? Como aceitar que o seu progenitor estivesse ligado ao nazismo?
A par das personagens, surgem nomes que os leitores por certo reconhecerão, todos eles figuras marcantes do seu tempo. A saber: Andy Warhol, Truman Capote, Tom Wolfe, Joan Baez, Patti Smith, Bob Dylan…
Uma complexa história de amor que é, ao mesmo tempo, um capítulo ficcionado da nossa História. O leitor não conseguirá pousar o livro enquanto não descobrir quem é, na verdade, «O último dos nossos».

Adélaïde de Clermont-Tonnerre nasceu em Neuilly-sur- Seine, a 20 de Março de 1976. Educada num meio artístico, estudou na Escola Normal Superior de Paris. Fourrure, a primeira obra publicada em 2010, recebeu vários prémios literários, entre os quais o Maison de La Presse, Françoise Sagan e Bel Ami, e foi finalista dos conceituados prémios Renaudot e Goncourt (Primeiro Romance).
Jornalista e escritora, é actualmente chefe de redacção da revista Le Point e participa em vários programas de rádio e de televisão. O Último dos Nossos é o seu segundo romance, vencedor do Grande Prémio do Romance da Academia Francesa e finalista do Grande Prémio do Romance Elle.

Divulgação: Novidade Topseller

«Tal como basta apenas um instante para se morrer, também basta apenas um instante para se viver. Fecha-se simplesmente os olhos e deixa-se que todos os receios fúteis se esvaiam.»

O meu nome é Tom Hazard. Pareço ter 40 anos, mas não se deixe iludir… sou muito mais velho do que isso. Séculos mais velho. E este é o meu perigoso segredo.
Fui contemporâneo de Shakespeare, vivi em Paris nos loucos anos 20, cruzei os mares de uma ponta a outra. Eternamente a fugir do meu passado e à procura daquilo que me foi roubado. Mas sem identidade ou raízes, a vida eterna pode tornar-se um vazio.
Numa tentativa de voltar à normalidade, arranjei trabalho como professor de História. (Quem melhor para relatar o passado do que alguém que o viveu realmente?) Talvez desta forma consiga perder o medo de viver.
A única regra para pessoas como eu é nunca se apaixonarem. Infelizmente, descobri isto tarde demais.
Escrito com alma e coração, Como Parar o Tempo celebra aquilo que nos torna humanos e ensina-nos uma verdade universal: a vida deve ser vivida sem medos.

Matt Haig foi jornalista, tendo colaborado com o The Guardian, o Sunday Times e o Independent.
Escreveu o seu primeiro livro em 2004 e, desde então, nunca mais parou. Autor bestseller com obras para adultos e para o público mais jovem, venceu o Blue Peter Book Award, o Smarties Book Prize e foi três vezes finalista do prémio literário Carnegie Medal. Os seus livros estão traduzidos em mais de 30 línguas e os direitos deste seu mais recente romance foram adquiridos para adaptação ao cinema.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Psicopaita (Luís Coelho)

Há crianças que vieram ao mundo para semear o caos - nomeadamente na vida dos pais. E quem acha que ter filhos é só uma sucessão de momentos fofos e ternurentos bem pode preparar-se para a verdade... nas páginas deste livro, por exemplo. Numa vasta série de crónicas sobre as agruras da paternidade, o autor percorre todas as situações de que ninguém fala a alguém que está a pensar em ter filhos, sejam elas as vergonhas, as preocupações, os diferentes graus de irritação... e todo um leque de problemáticas capazes de dar cabo do juízo dos pais. E quem já os tem... bem, decerto que se poderá identificar com algumas das muitas experiências partilhadas neste livro.
Basta olhar para a capa deste livro e para aquele muito evidente "tudo o que as crianças fazem que dá vontade de as esganar" - para não falar no próprio título, é claro - para adivinhar que uma boa dose de experiências razoavelmente irritantes (para o protagonista, não para os leitores, entenda-se) se avizinham. Mas uma das primeiras surpresas neste livro e também um dos aspectos mais divertidos está nas pequenas biografias que abrem cada secção - biografias de famosos psicopatas que, contadas de forma sucinta e caricata, surgem como estranhamente adequadas às variadas provações (mais uma vez, do protagonista, não dos leitores) que se lhes seguem. 
Mas passemos ao cerne da questão e às muitas tribulações contadas ao longo deste livro. Há dois aspectos que sobressaem: primeiro, a capacidade de contar episódios que, quando vividos, devem, na verdade, ter sido frustrantes, com um belíssimo sentido de humor; e segundo, o facto de que, experiências difíceis à parte, o afecto continua a transparecer em cada um dos textos. E isto é particularmente interessante porque, se tivermos em conta o título, é apenas expectável um certo toque de humor negro (e, oh, ele está lá...). Mas sendo facilmente reconhecível como tal, e complementado por um afecto igualmente expressivo, o resultado é um equilíbrio muito interessante, reflexo dessa mesma tal vontade de os esganar - e, ao mesmo tempo, de os proteger de tudo.
Claro que será um livro mais facilmente apreciado por quem tem filhos, até porque só quem os tem poderá entender verdadeiramente o tipo de experiências de que o autor está a falar. Ainda assim, já todos convivemos com as crianças dos outros. E é interessante considerar a forma como algumas das experiências de que o autor fala se aplicam, até certo ponto, ao contacto com qualquer outra criança. Quanto a quem tem filhos... bem, de certeza que se poderá identificar pelo menos com algumas das coisas que o autor conta. 
Tudo somado, temos uma leitura leve e descontraída que traça um retrato divertido - ainda que talvez não para o protagonista - das aventuras e desventuras de se ser pai. Divertido e cativante, um bom livro para descontrair.

Título: Psicopaita
Autor: Luís Coelho
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Emily Vale é uma escritora em ascensão ao abrigo do seu pseudónimo, Lady Justiça. E a sua escrita incendiária está a deixar Colin Gray furioso. Para além de Conde de Egremoor, Colin é também Peregrino, o líder do secreto Clube do Falcão, que se dedica, entre outras actividades, a encontrar pessoas desaparecidas.
As exigências constantes de Lady Justiça pelos mais pobres e as suas intromissões na política do reino, pondo em causa tanto a nobreza como o Clube, fazem com que Colin a considere sua némesis. E está decidido a desmascará-la.
O que Colin não sabe é que por detrás de Lady Justiça está uma amiga de infância, a quem salvou a vida quando eram crianças. Emily, por sua vez, também desconhece o papel de Colin como Peregrino.
Quando a sua irmã desaparece, Lady Justiça vê-se obrigada a recorrer ao Clube do Falcão e a Peregrino. Quando se encontram, Emily fica chocada ao descobrir a verdade, mas consegue proteger a sua própria identidade com um véu.
Conseguirá Emily proteger o seu segredo do rapaz que tanto adorava?
Será ela capaz de aceitar a ajuda do homem que ele se tornou, símbolo de tudo o que ela detesta? E, no meio de tanto conflito, poderá o amor florescer?

Katharine Ashe é uma autora bestseller do USA Today, de romances de época, com uma vasta legião de fãs. Os seus livros estão traduzidos em várias línguas, sendo amplamente elogiados e recomendados por importantes media internacionais como Publishers Weekly, Booklist, USA Today, Library Journal e Kirkus Reviews.
A autora foi também finalista do prémio RITA (Melhor Romance Histórico). Vive no sudeste dos Estados Unidos com a sua família, dedicando-se, além da escrita, ao ensino de História Europeia. Katharine Ashe acredita que os leitores modernos merecem, além de grandes aventuras, uma boa dose de sensualidade de cortar a respiração.

sábado, 21 de outubro de 2017

The Room by the Lake (Emma Dibdin)

Incapaz de lidar com os problemas na sua vida, Caitlin mudou-se impulsivamente para o outro lado do oceano, mas agora sente-se só e perdida. Não sabe ao certo o que fazer, por isso limita-se a vaguear, tentando encontrar alguém e deixar para trás o nevoeiro que lhe turva os pensamentos. E então, um dia, conhece Jake e ele parece ser tudo o que ela tem andado a procurar. Até que uma promessa de conhecer a família dele se transforma em algo diferente. Junto ao lago, um grupo de apoio isolado vive em comunidade, partilhando tudo uns com os outros. Mas há algo de estranho nesse grupo e, embora Caitlin questione o que se passa à sua volta, a necessidade de pertencer é mais forte que as dúvidas. Não tarda, os seus pensamentos começam a ficar turvos e o seu maior medo começa a emergir-lhe da própria mente… Fugir deixou de ser possível. Ou talvez nunca tenha sido.
Um dos aspectos mais intrigantes deste livro é que, embora leve o seu tempo a chegar às partes assustadores, há sempre nele uma certa aura inquietante, como uma estranha sensação que diz que há coisas mais negras para vir. E assim, o que começa como uma história um pouco triste (embora intrigante) sobre uma rapariga que deixou tudo para trás para não encontrar nada melhor do outro lado, não tarda a transformar-se numa narrativa mais perturbadora, sobre pessoas que parecem viver em tranquila comunhão, mas que na verdade guardam segredos no seu seio. Tudo evolui gradualmente, mas de forma envolvente. E, à medida que as páginas passam, a intensidade aumenta. E os últimos capítulos… bem, são simplesmente assustadores.
Também surpreendente, e uma das grandes forças deste livro, é o facto de, apesar de haver segredos perturbadores e episódios assustadores a acontecer, o caminho nunca é previsível. A comunidade não é, obviamente, o refúgio que devia ser, mas as coisas más que acontecem nunca são as mais expectáveis. E, ao contar a história do ponto de vista de Caitlin, o impacto deste percurso sai reforçado, pois muitos dos segredos obscuros têm origem na manipulação da mente, e a autora dá-lhe o tom ideal ao narrar tudo pela voz por vezes confusa da protagonista.
Há também muitas questões relevantes a ter em conta ao longo desta história: a ideia de comunidade e as possibilidades de adaptar este conceito a intenções perversas; a doença mental e o impacto que tem sobre a família; a impressão de crença, de querer, e como a mente constrói narrativas reconfortantes para se adaptar ao objectivo desejado. Tudo isto está, de algum modo, presente na história de Caitlin e o facto de estas questões pertinentes surgirem da narrativa de forma totalmente natural e sem diluírem a intensidade global do enredo é outra das muitas qualidades deste livro. E, no fim, tudo o que precisa de ser dito está lá. E o que não está… bem, faz sentido que fique por dizer.
A soma de tudo isto é, portanto, um livro intenso e misterioso, com grandes (mas falíveis) personagens e uma história que vagueia pelos labirintos da mente para criar uma teia de intensas e intrigantes surpresas. Envolvente, inesperado e fascinantemente construído, uma leitura bastante impressionante, e um livro que não posso deixar de recomendar.

Título: The Room by the Lake
Autora: Emma Dibdin
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Divulgação: Novidade Bertrand

Chegado à sua quarta escola em seis anos, Osei Kokote, filho de um diplomata, sabe que precisa de um aliado se quiser sobreviver ao primeiro dia de aulas. É uma sorte dar-se tão bem com Dee, a rapariga mais popular da escola. Mas há um colega que não suporta aquela relação: Ian decide destruir a amizade entre o rapaz negro e a menina de ouro. Chegados ao fim do dia, a escola e os seus principais actores (professores e alunos) nunca mais serão os mesmos. A tragédia de Otelo é transportada para o recreio de uma escola suburbana de Washington nos anos 70, onde os miúdos se apaixonam e desapaixonam antes da hora de almoço e praticam um racismo casual que vem de casa e dos professores. Tracy Chevalier cria um fortíssimo drama de amizades despedaçadas pelo ciúme, pelo bullying e pela traição.

Tracy Chevalier é autora de nove romances, incluindo o bestseller internacional Rapariga Com Brinco de Pérola, que vendeu mais de 5 milhões de exemplares e foi adaptado ao cinema. Americana de nascimento, britânica na geografia, vive em Londres com o marido e o filho. Tracy é membro da Royal Society of Literature e pode ser encontrada no site: www.tchevalier.com.